domingo, 27 de novembro de 2011

Anemia Ferropriva por Metrorragia - Intolerância ao Sulfato Ferroso


A anemia por deficiência de ferro é, isoladamente, a  mais comum das deficiências nutricionais do mundo e ocorre como resultado de perda sanguínea crônicaperdas urináriasingestão e/ou absorção deficiente e aumento do volume sanguíneo. Na anemia ferropriva ocorre diminuição dos níveis plasmáticos de ferro, o que limita a eritropoese. Os grupos mais vulneráveis para o desenvolvimento da anemia ferropriva são lactentes, crianças menores de 5 anos e mulheres em idade fértil. 

O TRATAMENTO
O tratamento da anemia ferropriva compreende orientação nutricional e reposição na dose correta e por tempo adequado de ferro, além da identificação e correção, quando possível, da causa que levou à anemia.

A via preferencial de reposição de ferro é a oral, e a dose terapêutica recomendada é de 2 a 5 mg/kg/dia por período suficiente para normalizar os valores da Hb (quatro a oito semanas) e restaurar os estoques normais de ferro do organismo (dois a seis meses ou até obtenção de ferritina sérica maior que 50 ng/ml).
Na prática, a dose máxima de ferro preconizada é de 120 a 240 mg de ferro elementar por dia, dividida em duas ou três tomadas. Acima de 200 mg, a mucosa intestinal atua como barreira, impedindo a absorção deste metal, e a proporção de ferro absorvido diminui significativamente.

As causas mais frequentes de falha no tratamento com ferro oral são: continuidade da perda de sangue (por falha na identificação de sangramento e/ou de distúrbio de absorção de ferro); medicação usada inadequadamente (baixa adesão ao tratamento devido aos efeitos adversos gastrointestinais e/ou dose inadequada e/ou duração insuficiente); doença coexistente interferindo na resposta ao ferro oral (anemia doença crônica, doença renal crônica); doença inflamatória ou infecciosa associada; diagnóstico incorreto (talassemia beta menor); deficiências nutricionais combinadas.
Apesar da eficácia e efetividade dos compostos com sal ferroso, estes estão associados à elevada frequência de efeitos adversos, como náuseas, vômitos, epigastralgia, dispepsia, desconforto abdominal, diarreia, obstipação, que pode chegar a 40%, o que determina menor tolerância, pior adesão ao tratamento e, consequentemente, piores resultados. Desta forma, sulfato ferroso não é o medicamento de primeira escolha no tratamento da anemia ferropênica; entretanto, é o único composto disponível para o tratamento dos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde.
Embora a adoção de medidas práticas para minimizar os EA e melhorar a aderência ao tratamento com sais ferrosos, como ingerir o medicamento durante ou após as refeições, sendo que, neste caso, a diminuição da absorção poderá ser compensada pelo aumento da aderência ao tratamento; iniciar o tratamento com doses menores seguido de aumento gradativo das mesmas; na maioria das vezes, é necessário substituir o sulfato ferroso por outro tipo de medicamento com ferro.
Os sais férricos (ferripolimaltose) têm a vantagem de poderem ser administrados durante ou após a refeição, apresentam menor incidência de efeitos adversos, o que lhes confere maior adesão e melhores resultados ao tratamento.
Outras opções terapêuticas correspondem aos sais ferrosos com ferro aminoquelado (resultante da união covalente do ferro na forma ferrosa, quelado com um aminoácido – glicinato, citrato de cálcio) e o ferro carbonila.

CASO CLÍNICO 
R.S.M., 41 anos, sexo feminino, procedente de Belo Horizonte, cuidadora de idosos.
Comparece a consulta de MGA-1 em setembro de 2011 para o acompanhamento de anemia ferropriva.
Há 10 anos teve início um quadro de metrorragia e foi diagnosticado leiomioma uterino. A perda crônica de sangue provocou uma anemia ferropriva que se arrasta há cerca de 5 anos. O histórico de exames laboratoriais da paciente mostra uma flutuação dos valores de ferritina ao longo dos anos, variando entre 8 e 17 ng/ml. R.S.M. revela que tem grande dificuldade em dar continuidade ao tratamento prescrito pois não tem boa tolerância ao sulfato ferroso, sentindo náusea e intenso desconforto abdominal com o uso da medicação.

CONDUTA
No caso desta paciente, como demonstrou renda familiar satisfatória, decidimos prescrever um medicamento que não é fornecido pelo SUS, mas que apresenta uma maior tolerabilidade pelos pacientes: o Neutrofer - Ferro quelato glicinato, uma das opções mencionadas no texto acima. 
Foi prescrito: Neutrofer comprimidos de 150mg BID por 10 dias e em seguida mudar para 300mg BID        (aumentar a dose gradativamente diminui os efeitos adversos e aumenta a aderência).

A paciente retornou ao ambulatório em novembro deste ano, trazendo novo resultado de Ferritina sérica: 30ng/ml . Ela nos contou que tem conseguido tomar o medicamento corretamente, sem apresentar os efeitos adversos relatados anteriormente, comprovando nossa hipótese de que o Neutrofer pode ser uma boa alternativa para pacientes que não toleram o sulfato ferroso.



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